terça-feira, 14 de março de 2017

Fumaça

Me impressiona nossa capacidade de discutir fumaça. De uma hora para outra, os tornados do Sul viram notícia, discutimos os nós do trânsito, a nevasca do século em Nova York, e a nova definição de Caixa 2 na política, tentando distinguir caixa 2 de corrupção de caixa 2 político. Tudo isso para evitarmos falar de aquecimento global, falta de educação social e representação política.


A fumaça da discussão do caixa 2 acoberta o fato que continuamos queimando estrume ao invés de lenha. Tanto faz se um Real foi desviado de uma obra por superfaturamento ou deixou de ser pago como imposto por uma empresa: Um Real dado a um partido político através de caixa 2 é um Real a menos na Saúde Pública. É um Real a menos nas escolas. É um Real a menos nas estradas. Um Real em Caixa 2 é um Real roubado da população.

Pessoas morrem quando esse dinheiro não chega onde deveria estar.

Mas ainda aqui, a discussão teria deixado de ser sobre a fumaça e chegado apenas às chamas. O que acho que é o miolo da questão, o estrume queimando, é a questão da representação política das empresas.

Uma empresa privada pode ter representação política? Se o governo é do povo, para o povo e pelo povo, onde cabe a empresa privada nessa história? Como fica a nossa democracia (com d minúsculo mesmo) quando o objetivo dos nossos representantes é o lucro dos seus patrocinadores?

Que fique muito claro: o objetivo de qualquer empresa é o lucro. Apenas o lucro viabiliza a existência da empresa. O que os seus sócios quiserem fazer com suas partes e retiradas, é opção deles e de mais ninguém mas a empresa, no entanto, tem uma responsabilidade apenas com o seu capital. E o lucro é a forma que a empresa tem para preservar e aumentar seu capital.

É aí que reforço a pergunta... Uma empresa pode ter personalidade política? Em sendo o seu interesse exclusivamente econômico, não faz sentido que um ente que só objetiva o lucro financie campanhas e partidos políticos. Como distinguir esta doação de um investimento? E, se investimento for, qual o retorno esperado?

E ainda tem quem defenda o caixa 2 nas campanhas...

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Revoluções Silenciosas

Algumas revoluções são silenciosas.
No início, tudo era muito mais simples. Conhecíamos quase todos da nossa pequena vila. Dinheiro só era necessário no fim do mês quando era preciso pagar a conta anotada na caderneta do dono do mercado. A vila cresceu, ganhou bairros. Apesar disso, dentro do nosso próprio bairro, seguíamos tocando a vida como sempre. Os problemas começavam quando precisávamos fazer alguma coisa em outro bairro: como o dono do, agora, supermercado não conhecia o cliente, passou a ser necessário fazer um cadastro. Para fazer o tal cadastro, eram necessários documentos, comprovantes, coisas emitidas por terceiros (que não conhecemos) que atestavam que nós eramos nós mesmos. Tornou-se necessário apresentar uma conta de água ou energia para provar que realmente morávamos onde diziamos. Passou a ser necessário andar com algum documento de identificação com foto no bolso para que pudessemos provar quem realmente somos. Hoje recorremos a cartórios para atestar que fomos nós mesmos que assinamos documentos.
Perdemos a capacidade de confiar.
A cada passo desse caminho rumo à perda de confiança, criamos novas estruturas confiáveis para garantir que os negócios que realizamos fossem minimamente garantidos. E todas essas estruturas vieram com custos associados. Cartórios, Câmaras de Compensação, Contas de Garantia, Seguros, todos mecanismos criados para compensar a falta de confiança inerente ao negociar com desconhecidos.
Tudo piorou quando a Internet tomou a proporção que tomou nas nossas vidas. Temos acesso a qualquer tipo de informação, de qualquer pessoa, de qualquer lugar, em qualquer língua (com auxílio do Google Translate). Se nossa desconfiança já era alta, veio a atingir níveis antes inimagináveis neste novo ambiente.
E voltamos a criar estruturas confiáveis: Certificados Digitais, Redes de Mensageria, Assinaturas Digitais. São apenas alguns, dentre os muitos, mecanismos criados para dar confiança às transações que fazemos diariamente. E tudo isso com seus custos associados.
O atual deslumbramento da indústria financeira com o Blockchain decorre exatamente de um aparente paradoxo frente ao mundo digital em que vivemos hoje: em um ambiente altamente distribuído, com centenas (ou até milhares) de participantes (todos, a rigor, desconhecidos uns dos outros), tornou-se possível fazer negócio com qualquer um sem ter que recorrer a um terceiro confiável para garantir a confiança na realização e conclusão do negócio. A transferência de cada Bitcoin, ou fração dele, feita entre duas pessoas é registrada em uma blockchain e garante que esta transferência ocorreu. Não é necessário autenticar cópia de nada, não é preciso reconhecer firma, é inimaginável ter que depositar o registro da transferência em um cartório. A transferência ocorre, o registro é anotado na blockchain e um consenso de maioria atesta que a transação foi válida e a registra em definitivo.
Não é necessário ter um terceiro de confiança. A confiança está na rede.
Um mero detalhe, mas um detalhe de tão grande alcance que ainda estamos começando a entender as suas consequências. O mercado financeiro, em grande parte devido ao sucesso do Bitcoin, já intuiu a economia resultante da comoditização da confiança. O Banco Santander já estimou uma economia nos custos de infraestrutura dos bancos da ordem de 20 bilhões de Dólares ao ano já em 2022 (https://goo.gl/QHWN7Y).
O impacto da tecnologia Blockchain será sentido em toda atividade que depende de confiança para ser realizada.
Dito dessa forma, não parece muito.

Algumas revoluções são silenciosas.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

O Alcance da Disrupção Digital

Se a necessidade é a mãe da invenção, a destruição criativa é sua parteira. São inúmeras as atividades econômicas que caíram em desuso ou simplesmente desapareceram: A economia em torno da indústria baleeira praticamente desapareceu com o advento da lâmpada elétrica, carroceiros foram obrigados a se adaptar e produzir carrocerias para a nova indústria automobilística enquanto criadores de cavalos tornaram-se provedores de artigos de luxo. A indústria do petróleo começa a sofrer ataques das “energias limpas” graças a todo um contexto desfavorável de mudança climática global.
Indústrias tradicionais, como a hoteleira, acusam o golpe de novatos no mercado, como o Airbnb e sindicatos de taxis já desenvolvem seus próprios aplicativos e serviços para concorrer com Über e Cabify. Logo os planos de saúde descobrirão, tarde demais, que o Dokter é, sim, um concorrente à altura enquanto novos NuBanks continuarão a atormentar a vida dos bancos tradicionais.
Vemos pela história que a destruição, seja por extinção ou por transformação radical, de uma indústria é o meio pelo qual novos serviços se tornam fundação para novos mercados e novas indústrias. Impensáveis, até então.  Uma análise superficial do Über serve para ilustrar a diferença:
Se um empresário quisesse, no final do século XX, implantar um serviço de transporte capaz de concorrer com o já estabelecido Taxi urbano, precisaria se preparar para uma verdadeira operação de guerra. Da seleção da frota ao treinamento dos motoristas passando por toda a logística de manutenção e abastecimento dos veículos, cada passo do estabelecimento do negócio seria um pesadelo regulatório e comercial. Tentar criar um serviço privado que abrangesse uma cidade média apresentaria custos que inviabilizariam o retorno desse nascente negócio. Isso sem falar na possibilidade dos potenciais clientes rejeitarem os veículos e o serviço. O prejuízo seria imenso.
Mas este cenário deixou de existir com os novos empreendedores digitais.
Em março de 2009 Travis Kalanick fundou a Über. Em 2016, 7 anos após sua fundação, a Über já vale US$ 51 bilhões e administra a maior frota de veículos de transporte de passageiros do mundo, globalmente, sem ter um único automóvel próprio. Em 7 anos, a Über conseguiu iniciar o processo de destruição de uma das indústrias mais tradicionais das áreas urbanas: o transporte individual de passageiros. Um negócio que há 20 anos seria impensável para ser implantado em uma única cidade pequena é hoje um produto global, gerando inovação e disputas decorrentes do processo de destruição criativa.
Em outro exemplo, esse de maio de 2013, uma empresa de pagamentos lança um produto revolucionário no mercado, um cartão de crédito sem papel, com atendimento “descolado”, dando ao cliente a possibilidade de gerenciar sua conta como se fosse uma conta bancária. E tudo isso sem tarifas. O NuBank é hoje uma referência da indústria financeira que vale mais de US$ 500 milhões sem ser um banco.
A disrupção de um setor ocorre quando novos serviços conseguem ser ofertados, de forma conveniente, a consumidores que não reconhecem vantagem no serviço ou produto atual. Creio que a palavra chave aqui é conveniente. Não é apenas uma questão do preço ser justo ou do serviço ou produto ser de qualidade. Mais que qualquer outro requisito, há que ser conveniente.
Pense em alguém que precisa de um cartão de crédito. Além de ter que ir a sua agência bancária ou ligar para um 0800 e ter que assinar um ou mais formulários para depois  esperar o cartão chegar pelo correio, ou, dependendo do banco, ir buscá-lo na agência onde tem conta. O que fez o NuBank? Tornou-se conveniente. Mais que ser um cartão sem tarifas, qualquer pessoa pode solicitar um cartão internacional bastando para isso baixar um aplicativo no celular e seguir as instruções. Junte isso a um desejo de maior modernidade e o produto cartão de crédito oferecido pelo NuBank torna-se extremamente conveniente. A novidade foi o processo de originação de um produto financeiro.
Disruptivo foi o processo, não o produto.
E é, na rápida modificação de processos para oferecer produtos e serviços que chegamos ao ponto máximo da disrupção digital. Quanto custa a um entrante no mercado oferecer um serviço pela Internet? Quanto custa modificar o processo caso a primeira tentativa não dê certo? Quantas vezes esse processo poderá ser alterado até que se chegue ao ponto ótimo para os potenciais clientes? Como captar a satisfação dos clientes para continuar a melhorar o produto? E quais as respostas para os atuais fornecedores de produtos e serviços?
Quando vemos a história da Über e vemos a quantidade de modificações feitas ao produto ao longo do tempo até o lançamento público da companhia, e que continuam sendo feitas,  para garantir clientes satisfeitos e um produto em constante evolução, vemos que não foram as barreiras de entrada que caíram no mundo digital: a verdade é que ficou muito barato falhar e recomeçar.
Essa nova geração de empreendedores digitais não é nem mais nem menos criativa que as anteriores. A nova geração também não é mais tolerante a riscos. Os riscos é que ficaram menores.

domingo, 21 de dezembro de 2014

Tempo perdido

Fiquei impressionado. A última postagem neste blog foi em 2013, mais de um ano atrás, para ser um pouco mais específico.
Essa constatação me deixou embasbacado, de queixo caído e triste. Mais triste que qualquer outra coisa. Por conta disso tive que parar para fazer uma reflexão: Por que parei de escrever aqui? Aliás, por que passei mais de um ano sem postar nada no meu blog?
Algumas respostas candidatas pularam na frente de todas as outras logo de cara:
  1. Perdi o tesão?
  2. Perdi o interesse?
  3. Nada a declarar?
  4. NDA?
Comecei a fazer uma auto-análise e cheguei a conclusão que joguei fora o tempo. Não parei de escrever, só parei de escrever onde mais interessava: Aqui.
Fiquei mais de um ano escrevendo no tal do Facebook, jogando migalhas de informação atrás de curtidas vazias que mesmo em baixo número me faziam sentir que estava fazendo algo relevante. Enquanto isso, o Notas Livres ficou às moscas digitais. Vazio, oco, sem nada que justificasse sua existência.
As curtidas do Facebook funcionam como o mecanismo de jogo dos caça-niqueis dos cassinos de Las Vegas: ganhos que não valem nada mas que fazem você voltar para conferir quantas curtidas sua última anotação sarcástica conseguiu extrair dos seus amigos. E, ao perceber que sua última postagem não teve o sucesso que você esperava, você posta de novo e de novo, esperando uma curtida a mais ou alguma coisa que te faça pensar que aquela ação foi relevante. Pouco tempo depois, lá vem a vontade de conferir as curtidas de novo...
Com vinhos foi um pouco diferente. Neste caso foi o tal do Vivino. Uma rede social de vinhos genial que queimou a necessidade de postar análises mais curiosas por aqui.
Nos dois casos, a gratificação instantânea da postagem imediata e da curtida de amigos fez com que a iniciativa de escrever no blog fosse ficando cada vez mais distante.
Tenho que me redimir. Tenho que escrever. Tenho que postar.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Preços e Preços

Com o fim de ano se aproximando, sendo pai de um gamer e avô de um futuro, venho acompanhando as broncas sobre o preço do PS4 no Brasil. Dizem que muitos números espantam leitores mas nesse caso, acho que vale a pena o esforço.

Disclaimer -  O que escrevo aqui não é um estudo acadêmico nem é dotado de rigor científico. É apenas uma pesquisa de preços feita por um avô tentando se planejar para o fim de ano.

O mercado de games funciona em um modelo de perda ao qual já estamos acostumados graças às impressoras jato de tinta: o fabricante vende a impressora com prejuízo para tirar o lucro da venda dos cartuchos de tinta. O resultado desta prática é que às vezes sai mais barato descartar a impressora velha que comprar um cartucho de tinta novo. A arte do negócio é encontrar esse equilíbrio delicado onde o consumidor sinta mais benefício comprando um novo cartucho que uma nova impressora.

No mercado de games o modelo é, teoricamente, o mesmo. As empresas vendem os consoles com prejuízo (no caso da Sony, esse chegou a US$ 300,00 por unidade quando foi lançado o PS3 em 2006 – http://goo.gl/Qzrel4) esperando recuperar o lucro na venda de games. Este é um dos motivos que torna a comparação de preços de consoles e jogos entre países tão complicada. Também é o que explica boa parte das restrições de geografias na publicação dos games.

O que é interessante, como bom consumidor, é comparar preços. E é aí que, como bom brasileiro, me sinto péssimo.

Fiz uma comparação em lojas online nos Estados Unidos e no Brasil para tirar a prova se essa história da Sony vender o PS4 tão mais caro aqui se deve mesmo aos impostos brasileiros. Pegando o preço do console (pre-order) no site da Amazon nos EUA e no das Americanas aqui no Brasil vi que o console que será vendido a US$ 400,00 (R$ 872,00) lá fora vai realmente ser vendido a R$ 4.000,00 (tá bom, R$ 3.999,00 ou US$ 1.834,40) aqui no Brasil. Uma diferença sutil de quase 359%. Realmente de cair o queixo.

Como o PS3 é fabricado aqui fui ver a diferença nos sites da própria Sony. Resultado, o PS3 de 250GB vendido nos EUA sai por US$ 244,00 (R$ 531,92) enquanto o mesmo modelo aqui no Brasil custa R$ 1.099,00 (US$ 504,13), uma diferença de “apenas” 106% considerando o câmbio oficial de de hoje de R$ 2,18 por Dólar (ufa)!

Como o Xbox One vai ser produzido no Brasil, segundo a Microsoft, eu esperaria que a diferença de preço entre o nosso e o deles também fosse nessa faixa. E é. O preço anunciado para o XBox One nos Estados Unidos é de US$ 500,00 (R$ 1.090,00) enquanto que no Brasil deve ficar em R$ 2.200,00 (US$ 1,009.17) o que dá uma diferença de 102%, bem próximo da diferença do PS3 nacional quando comparado com o americano.

Por esses números até parece que a Sony tem razão quando joga a culpa do preço do PS4 nos impostos.

Mas como tem sempre um mas...

Para desencargo de consciência, resolvi também comparar os preços do Xbox 360 e do Nintendo Wii. O primeiro por também ser fabricado aqui no Brasil e o segundo, justamente, por não o ser.

Tive que trabalhar com uma configuração que pudesse ser encontrada nos dois países (sites da Amazon, CTIS e Americanas) e o preço que encontrei para comparar foi o do Xbox 360 com 4GB. Esse aparelhinho custa US$ 179 (R$ 390,22) nos Estados Unidos e R$ 1.199,00 (US$ 550.00) aqui no Brasil. Diferença de 207% que fica difícil de justificar considerando a fabricação nacional e o padrão de 100% de diferença que encontrei no PS3 e Xbox One.

Confesso que minha confusão só aumentou quando fui ver o preço do Wii. O mesmo console que custa US$ 160.00 (R$ 348,80) lá fora é vendido aqui no Brasil a R$ 700,00 (US$ 321.10). Diferença de exatos 100,69%. Como é que pode um Wii importado ter “só” 100% de diferença do preço de varejo lá de fora enquanto que o PS4 tem quase 360% de diferença? E no meio disso tudo, o Xbox 360 nacional custa 200% mais caro que o estrangeiro? As alíquotas não são as mesmas?

Como disse no início desse texto, como o modelo é de perda, não faço ideia do prejuízo que a Sony, Microsoft e Nintendo estão absorvendo na venda dos consoles aqui no Brasil mas quanto mais penso no assunto e nessa diferença mais fico em dúvida sobre qual das opções abaixo seria a correta:
  1. O contador da Nintendo é melhor que o contador da Sony.
  2. A Nintendo está fabricando o Wii secretamente no Brasil e não contou pra ninguém.
  3. A Sony resolveu não ter prejuízo no console vendido no Brasil e está subsidiando o mercado norte americano.
  4. Todo mundo cobra o que bem entende da gente e o consumidor que se dane.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

De volta

Depois de longo e tenebroso silêncio o Notas Livres está de volta. E agora com seu próprio domínio!

Por sorte hoje vi que o domínio notaslivres.com.br estava disponível e em uma compra tipicamente de impulso, comprei e redirecionei o domínio para cá.

O Blog continua na estrutura do Blogspot mas agora com nome próprio.

E que venham as publicações!

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Coopetição

Com o lançamento do OpenOffice 3.4 pela Fundação Apache, um verdadeiro balaio de gatos parece ter sido jogado no meio da sala. De uma hora para outra antigas desavenças se exacerbaram, levando a troca de alfinetadas existente a níveis dignos de finais de Telecatch (para quem ainda é muito novo, recomendo ler a entrada da Wikipedia sobre o tema e procurar as gravações no YouTube). De restrições a utilização de marcas a arroubos dignos do pior ufanismo, acho que, se não vi de tudo, não quero ver mais nada. Só tenho certeza de uma coisa, todos esses que estão se alinhando em cantos opostos do ringue parecem ter esquecido que há espaço para todos e para todos há lugar.

Quando comecei a trabalhar com editores de textos, achava que o melhor deles era o WordStar em CP/M 80. Isso foi até descobrir o WordPerfect rodando em PC-DOS. Que maravilha! Tudo bem que a interface deixava um pouquinho a desejar. Ao chamar o programa, digitando wp na linha de comando, a tela ficava azul e o cursor ficava lá piscando no canto superior esquerdo da tela. Só isso. Assustava no começo mas depois de pegar o “jeitinho”, o poder de fogo do wp era imbatível.

Fiquei tão fã que quando a WordPerfect lançou uma versão para Windows (3.1) com uma opção de compatibilidade para OS/2, não tive dúvidas: comprei uma cópia. Tenho a caixa com os disquetes até hoje enfeitando a estante.

Um belo dia testei, e gostei, de um pacote nativo para OS/2, o StarOffice. Para mim era um conceito novo, um software que podia ser baixado de graça por pessoas físicas e que oferecia suporte pago para quem dele precisasse. Com uma interface nova em abas que integrava não apenas as funções de um pacote de escritório tradicional mas também um cliente de correio e um navegador web, logo passei a usar o StarOffice de forma exclusiva. Até a Sun comprar a StarDivision e fazer história, liberando o código do produto e iniciando o projeto OpenOffice.org.

O resto, como se diz, é história.

De lá para cá, no entanto uma coisa mudou: a forma como encaramos os documentos textuais. Até a chegada do ODF com o OpenOffice.org não havia separação clara entre o documento e o programa que o havia gerado. Isso gerava situações complicadas para mim que usava o WordPerfect.

Como vocês podem imaginar, o WordPerfect nunca foi muito popular no Brasil onde o Word 6 era mais usado e copiado. Com isso, muitas vezes me via na situação de ter que exportar um documento para um formato “neutro” que pudesse ser lido pelo Word. Quando era necessário preservar a formatação, não tinha jeito, a única solução era imprimir e mandar uma cópia por correio ou fax.

Entre outros méritos, o OpenOffice.org lançou a ideia que um documento eletrônico deve ser gravado em um formato aberto que seja independente do software que o gerou. Chegamos a um ponto onde este texto começou a ser escrito no LibreOffice, passou pelo novo OpenOffice e, para abusar da sorte e do ponto, foi terminado no AbiWord. Em todos usando o mesmo arquivo .ODT (OpenDocument Text).

É disso que se trata o lançamento do Apache OpenOffice 3.4, de mais um produto de qualidade que suporta e incentiva o uso do ODF como padrão para o armazenamento de documentos eletrônicos. Não se trata de competição mas sim de coopetição: diversos produtos concorrentes promovendo um interesse mútuo. No nosso caso, o padrão de documentos.

Quem quiser ficar de birra, que fique. Mas se você precisa de uma alternativa livre para abrir aqueles malditos arquivos .VSD, fique com o LibreOffice. Se a sua empresa tem restrições legais com relação ao uso de software GPL (sim, estou incluindo a LGPL nessa categoria), o Apache OpenOffice é uma excelente opção. Se a sua conexão for lenta e você acabou de instalar o Ubuntu com o Gnome Shell, use o AbiWord que funciona muito bem. O importante é usar e promover o ODF. Não interessa qual o seu editor de textos, sua planilha ou o seu programa de apresentação. O que interessa é que os documentos que você produza sejam gravados em um formato que não exija um software específico para ser lido.

E nesse quesito, quanto mais opções, melhor.