quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

Uma Noite Meio Grega

Depois de dois anos de reclusão pandêmica e, convenhamos, querendo experimentar coisas novas, fomos arriscar o jantar no Greta Kouzina. Um restaurante com pegada grega que abriu na QI 9 do Lago Sul em Brasília.

Situado no que em outras cidades seria uma esquina, o Greta logo agradou pelo ambiente. Azul e branco alternando nas paredes fazendo lembrar de Santorini; mesas montadas na varanda contornando o bar e a cozinha. Muito agradável e sem nenhuma afetação de restaurantes “metidos a chique”.

Apesar de não termos feito reserva, E. e eu fomos rapidamente acomodados em uma mesa na varanda e logo avisados que alguns itens do menu não estavam disponíveis naquela noite. Confesso que fiquei decepcionado na largada pois um dos pratos era o Moussaka que eu estava querendo muito apreciar. Especificamente com relação ao Moussaka, o garçom foi rápido em dizer que o prato não estava pronto “ainda”, mas que mais tarde, se ainda estivéssemos interessados, quando estivesse, poderíamos até pedir. Me subiu um pequeno alerta.

Pedimos uma entrada. Spanakopitas. Pequenos pastéis de massa filo recheados com queijo de cabra e espinafre e fritos. Estavam bem saborosos e o prato muito bem montado, convidativo mesmo, mas o brilho da gordura na massa recomendava comê-los com garfo e faca ao invés de usar os dedos.

Na hora de pedir os pratos, como alguns que eu queria estavam em falta e a Moussaka ainda não estava pronta, E. resolveu ficar numa salada e eu acabei escolhendo um prato tipicamente grego: um salmão. Depois de trocar uma ideia com o sommelier e acatar a sugestão de um chardonnay mais mineral que estava disponível em meia-garrafa, esperamos os pratos enquanto aproveitávamos do ambiente e da noite, clara e agradável.

Uma coisa devo dizer sobre o Greta: os pratos são muito, mas muito bem servidos. A salada Santorini que E. pediu tinha uma quantidade generosa de couscous marroquino, queijo de cabra, tâmaras, pistache, damasco e até um pouquinho de rúcula e um vinagrete de romã que parecia muito interessante. No final, ela comentou que a salada poderia se beneficiar de um pouco mais de folhas.

A posta de salmão em crosta de castanhas estava linda! Servida sobre uma cama de purê de beterraba e legumes salteados com um azeite verde, compunham uma primeira impressão muito bonita. Mas vamos por partes. O salmão estava extremamente bem-acabado. Ponto correto, crosta perfeita e em harmonia com o purê de beterraba. Estranhei que perdidos no purê estavam alguns aspargos verdes grelhados, muito bem preparados, mas que não estava agregando muito ao prato. Sei que é mania de brasileiro colocar farofa em tudo, mas, acho que um crocante de castanhas complementaria muito bem o prato no lugar dos aspargos.

A quantidade de comida era tanta que nem eu nem E. conseguimos acabar com nossos pratos.

A sobremesa ficou só para E. pois preciso parar de crescer para os lados: Melomakarona, biscoitos de camadas massa filo com mel servidos com sorvete de baunilha. Um pouco difícil de começar a comer, pois a massa filo é extremamente quebradiça, mas E. gostou muito.

O Greta é um restaurante que está começando e que ainda tem seus problemas de logística. Faltar algum prato ou ingrediente é até aceitável, mas deixar a impressão que um prato interessante é feito de forma antecipada e não para o cliente, me parece meio problemático. O paladar brasiliense pode até não estar preparado para o sabor da comida grega, mas isso não deveria implicar em menos opções gregas de fato no cardápio.

Certamente vou voltar ao Greta. Ainda tenho uns Gyros de polvo e Keftedes para experimentar. Só vou mandar mensagem antes para saber se terão ou não a Moussaka para servir.


terça-feira, 25 de janeiro de 2022

NFTs

 Ninguém duvida do valor da Mona Lisa. Muito menos da sua unicidade. E é, em parte, essa unicidade que faz com que o seu valor seja “incalculável”. É fácil percebermos que estamos falando de um objeto único que, apesar de ter sua aparência amplamente reproduzida e incorporada à cultura popular, é facilmente distinguido de qualquer derivação. Também é fácil perceber que se alguém chegar vendendo a Mona Lisa, por qualquer valor que seja, é quase certo que estamos diante de uma falsificação.

Essa unicidade do objeto junto com sua percepção de valor é a base do mercado de arte. Mecenas e galeristas descobrem artistas que, por suas qualidades ou tipo de vida ou comportamento, produzem obras únicas que são valoradas de acordo com a percepção dos colecionadores e o quanto estão dispostos a pagar.

Daí a disparidade de preços e a explicação do porquê um quadro do Banksy, semidestruído por um triturador de papel embutido na moldura foi vendido por 1,4 milhões de dólares. É uma obra única, irreproduzível e inseparável do seu meio sem que seja destruída (definitivamente).

No mundo digital as coisas se complicam um pouco. Vamos imaginar que um “objeto digital” é qualquer coisa que possa ser representada por um conjunto de bits e que só existe como objeto enquanto houver alguma forma de armazenamento que o possa manter. Se eu faço um desenho no computador e não gravo o trabalho em um disco ou outro dispositivo, esse “objeto” se perde quando eu desligar o computador. Quando o desenho é gravado em um arquivo, esse desenho ganha uma “sobrevida” e pode ser recuperado para ser visto ou refinado.

O mais interessante é que o desenho deixa de fazer parte do meio. Se eu fizer um desenho em uma folha de papel, é impossível separar o desenho da folha sem destruir o objeto como um todo. Já no mundo digital, o desenho é meramente codificado em um arquivo ou em alguma outra forma de armazenamento. A obra é separada do meio.

Tanto isso é verdade que uma vez “gravado”, o arquivo do desenho pode ser copiado sem perda. Uma cópia de um arquivo digital é tão completa e original quanto o “original”. Esse mesmo desenho pode ser armazenado em uma quantidade enorme de formatos de arquivos mantendo a originalidade do desenho em cada um deles.

Essa característica do objeto digital abriu mercados e gerou oportunidades. Também gerou especulações sobre como garantir a originalidade de qualquer coisa no mundo digital. Adaptamos nossas ferramentas do mundo analógico ao mundo digital: para software, contratos de licenciamento; para imagens e textos, copyrights; para modelos e algoritmos, patentes. E isso resolveu muito bem a vida de produtores de conteúdo, mas deixou de fora todo o mundo do mercado de arte que ainda não havia descoberto como se digitalizar. No máximo, o mundo digital era usado para geração de catálogos e registros de compra e venda. Ainda não havia uma “arte digital” que pudesse ser comercializada como tal.

Com a chegada das tecnologias blockchain e das criptomoedas houve um momento de inspiração: Assim como é feito com uma moeda digital, seria possível registrar uma obra em uma blockchain e garantir assim a sua unicidade? Afinal, uma vez gravado em um registro na blockchain o objeto torna-se único e imutável, certo?

Em cima deste conceito criou-se um mercado que se prevê chegar a 35 bilhões de dólares em 2022 com potencial para chegar a 80 bilhões de dólares em 2025 (1).

Com o sucesso das criptomoedas e o medo de perder dinheiro entrando tarde no mercado, foram criadas plataformas para vender e registrar essas novas obras únicas que receberam o nome de NFT (Non Fungible Token, em inglês). No fim das contas, trata-se do registro de compra de um objeto digital original que, pela natureza do registro, não pode ser duplicado, copiado ou alterado. Algo como uma escritura de propriedade digital sobre um objeto igualmente digital.

A ideia de um objeto digital único foi concretizada por Kevin McCoy em 2014 com a criação de Quantum, uma peça de arte digital cadastrada em uma blockchain. Colocado a venda em 2021 na Sotheby’s com lance inicial de 100 dólares, esse NFT foi arrematado por 1,4 milhões de dólares (2).

Mais recentemente, o NY Times publicou matéria onde um ex executivo da Christie’s está fragmentando, digitalmente, um quando do Banksy (ele de novo) em 10.000 pedaços onde cada um será vendido como um NFT. (3)

O volume de dinheiro envolvido nas transações de NFTs é tão elevado que há sempre quem levante a lebre da lavagem de dinheiro. Não cabe aqui fazer essa análise, mas me parece que essa pressa de entrar nesse mercado é decorrente do histórico das criptomoedas, que passaram de formas de pagamento obscuros de mercados, muitas vezes ilícitos, a ativos disputados e promovidos por corretoras tradicionais; ninguém parece querer correr o risco de entrar tarde no mercado e estão gastando por conta.

Um bom exemplo dessa pressa é o Bored Ape Yacht Club (4), uma comunidade para os donos de um conjunto de, no máximo, 10.000 NFTs lastreada na blockchain do Ethereum. Nessa comunidade, o NFT funciona como a chave de acesso ao clube e os valores cobrados por cada NFT pode variar muito. O próprio Neymar comprou dois NFTs dessa coleção por 1,1 milhões de dólares (5). Uma das imagens está até sendo usada como sua foto no seu perfil pessoal no Twitter.

Essa exposição da imagem e sua reprodução em vários locais leva a confusão de muitos sobre o que é realmente o NFT. Se eu posso copiar e reproduzir, onde está a unicidade do objeto? Se eu posso copiar e criar derivações dos “macacos entediados”, dentro do permitido pela lei de direitos autorais, o que é que o NFT traz de novo? O que foi que o Neymar comprou?

O que ele efetivamente comprou foi um registro em uma rede blockchain. Pelas regras de criação desse registro, ele é único e não pode ser substituído por outro. A imagem simplesmente funciona como uma representação do registro comprado, nada além disso. Guardadas as proporções é como comprar uma cota de um investimento hoteleiro. Você é dono de um certificado de propriedade de uma parte do negócio, mas não daquele quarto com vista para a piscina.

A imagem do macaco entediado funciona como uma referência ao registro (token) na blockchain e não se confunde com o próprio registro. Como qualquer outro objeto digital, a imagem existe apenas enquanto houver um armazenamento que a persista. Da mesma forma, o token persiste enquanto houver uma rede blockchain ativa com o seu registro. O importante é que o comprador é proprietário do registro do token na blockchain e não necessariamente do objeto digital usado para sua representação que segue sendo copiado, divulgado e citado em diversos meios.

A consolidação do NFT como objeto de valor é importante não pelos objetos registrados ou pelos volumes de dinheiro envolvidos, mas, principalmente, pela possibilidade de aplicação do conceito a outros ambientes digitais como plataformas de jogos, mundos virtuais e outras novidades que o metaverso trará. Dentro de um ambiente controlado como o de um mundo virtual onde jogadores interagem, batalham e cooperam, torna-se possível atribuir propriedade “real” de objetos a jogadores específicos. Aquele jogador que chega primeiro a uma nova área do mapa do jogo pode ter a possibilidade de comprar um lote virtual onde pode construir seu castelo ou sua fazenda. Essa compra pode garantir direitos dentro das regras de funcionamento do jogo criando todo um novo fluxo de receita para os editores. Um outro jogador pode se estabelecer como armeiro, criando armas únicas que, dentro das regras do jogo, não podem ser duplicadas, apenas trocadas com outros jogadores.

Essas transações já estão acontecendo. No Sandbox, um mundo virtual baseado na rede blockchain do Ethereum, já há transações de objetos como um iate, virtual, é claro, que foi vendido como NFT no ambiente por 908 mil dólares. Também estão ficando frequentes as notícias de “terrenos” virtuais no metaverso sendo vendidos por quantias milionárias.

Só o tempo dirá se estamos vivendo uma bolha de NFTs ou não, mas uma coisa é certa, o conceito veio para ficar.

quinta-feira, 14 de maio de 2020

Da natureza e da política


Há coisas da natureza que independem da vontade das pessoas para que sejam reais.
Vírus são uma dessas coisas.
Por mais que se queira subjugar um vírus a uma ideologia ou a uma visão de mundo, o curso natural de reprodução desse tipo de microrganismo continua. Independente de crenças ou de visões de mundo, o vírus segue sua programação biológica e por mais que queiram sujeitar sua forma de contágio a uma teoria econômica ou política, por mais que queiram mentir sobre sua letalidade ou capacidade de contágio, ele segue contaminando populações.
Se há uma coisa que podemos afirmar sem medo de errar é que o vírus não está nem aí para ideologias. O vírus simplesmente se reproduz. E quanto mais gente estiver disponível, mais o vírus se reproduzirá.
Mais pessoas serão infectadas.
Mais pessoas morrerão.
Se estamos vendo pessoas desesperadas buscando formas de pôr o próximo prato de comida na mesa, não devemos culpar a conjuntura de um lock down necessário. Devemos pensar em como anos de desigualdade social levaram a uma situação de insegurança social extrema onde grande parte da nossa população vive da mão à boca sem conseguir gerar um único centavo de poupança para dias como os que estamos passando. Devemos pensar em como faremos para que isso não ocorra de novo.
Devemos pensar em como ajudar estas pessoas neste momento de crise e necessidade.
Uma parte dessa ajuda está sendo feita através do auxílio emergencial, um reconhecimento da necessidade da população frente ao desafio da Covid-19. Esse auxílio emergencial é apenas parte da assistência necessária. Estados e municípios devem também fazer sua parte e auxiliar estas famílias a sobreviver.
Se pais de família recorrem à violência para alimentar seus filhos, a culpa, se é que estamos em condições de procurar culpados e não soluções, é dos governantes que não foram capazes de prover a assistência necessária para que isso não ocorra. Estamos vivendo um daqueles momentos históricos para o qual o Estado (com E maiúsculo) foi concebido. Fora dele, regredimos à barbárie.
Não adianta falar em abertura de pequenos negócios quando pessoas que os frequentam começarem a se contaminar e a morrer e os negócios a fechar por falta de clientela, independentemente da vontade de quem quer que seja. Não adianta abrir uma academia se não houver pessoas que as frequentem com confiança de que não morrerão por colocar a mão em uma barra de exercício. Não adianta reabrir salões de beleza e barbearias por duas semanas se depois disso os clientes não voltarem mais porque estão doentes, ou pior, mortos.
Se continuam a falar que a cura não pode se pior que a doença. Minha pergunta é a mesma que foi feita há dias pelo governador de Nova Iorque: O que é pior que a morte?
E enquanto discutimos política, o vírus se espalha, contaminando cada vez mais pessoas. Matando cada vez mais pessoas. Consumindo cada vez mais recursos.
Se o vírus tivesse a capacidade de humor, tenho certeza de que estaria rindo de nós.

quinta-feira, 4 de julho de 2019

Paris 6

Saímos para procurar um sofá novo. Entre uma loja e outra, paramos no Paris 6 do Shopping ID. Como nenhum de nós estava com muita fome, pedimos umas bruschettas, dadinhos de tapioca e uma porção de iscas de fraldinha. Todos os pratinhos com sobrenomes de famosos que, devo confessar, não sei quem são e de quem não mais me lembro.

Da experiência devo dizer que nem a fraldinha, meramente mediana, salvou a noite. As bruschettas eram simplesmente torradas frias com tomates picados por cima. Os dadinhos de tapioca pareciam ter sido construídos com farinha e cola branca, dessas que crianças usam para fazer trabalhos escolares mesmo. A fraldinha, completamente sem gosto salvo o da mostarda que a acompanhava.

Não tenho muita certeza, mas devia estar acontecendo uma convenção nacional de garçons do Paris 6 pois quando E. quis pedir a sobremesa, estavam todos em volta do balcão do bar, ninguém olhando para as mesas. Finalmente um deles se dignou a responder aos acenos contínuos da nossa mesa e E. pediu profiteroles com sorvete de pistacho com sobrenome de outro famoso desconhecido. Estava doce, frio e com uma calda de chocolate que matou o pistacho completamente.

De toda a experiência, salvou-se o ambiente: uma curiosa homenagem ao bistrô parisiense dos filmes de Hollywood.

- l'addition, s'il vou plait

P.S. Enquanto esperavamos a conta, só via a fila do Madeiro crescer...

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Uma Rede de Confiança

Já houve um tempo, quando o mundo era menor, onde todas as nossas relações eram baseadas em confiança. Íamos à quitanda da esquina fazer as compras da semana e pagávamos no final do mês. Todos sabiam onde todos na cidade moravam. As mães mandavam os filhos ao mercadinho pegar aquele saco de açúcar que faltava sem a preocupação de ter dinheiro na mão para pagar no momento da compra.

O mundo cresceu. O que era normal para a cidade virou uma curiosidade de bairro. O dono do mercadinho diversificou sua oferta e o número de fornecedores. A memória já não bastava e por isso a caderneta, que já era usada para alguns casos, teve que se profissionalizar. Já não bastava a confiança, passou a ser necessário registrar a conta. Por se tratar das finanças do mercadinho, no começo só o dono fazia o registro. Depois que até essa tarefa foi delegada passamos a desconfiar que pudesse haver alguma coisa lá que não chegamos mesmo a comprar.

Com o aumento da complexidade das relações, passou a ser necessário escolher alguém para resolver os conflitos. Deixamos de confiar uns nos outros para depositar nossa confiança em terceiros que, de comum acordo entre as partes, decidiam sempre que houvesse uma disputa. Cartórios, Registros, Burocracia, todos recursos necessários para mediar os conflitos decorrentes da falta de confiança.
Quando o assunto passou a envolver dinheiro, então, nossa desconfiança mútua aumentou. E muito! E escolhemos confiar em instituições financeiras para cuidar, com segurança, do nosso dinheiro.

É claro que essas instituições variavam muito de lugar para lugar, mas sempre com alguma autoridade, um terceiro de confiança, que garantia a transação. Nossa relação com dinheiro produziu algumas coisas curiosas que decorrem da nossa necessidade de confiar. Seja uns nos outros, seja em um terceiro que escolhemos para garantir nossas transações: produzimos bancos para mediar transações financeiras entre pessoas e empresas, produzimos Bancos Centrais para garantir e controlar as transações entre os Bancos, produzimos organizações financeiras internacionais para garantir as transações entre os bancos de países diferentes.

Passamos pelo gado, pelo sal, pelo papel moeda e ao controle centralizado (mais um terceiro de confiança) da sua emissão, e chegamos ao Bitcoin. Assunto de interesse para todos. Sem dúvida o nosso interesse por ganhos rápidos tornou o Bitcoin o assunto da vez em uma quase todos os lugares. Quantos aqui nunca tiveram que explicar o conceito do Bitcoin para alguém? Parece bom demais, não? Um dinheiro virtual que não é emitido por nenhuma autoridade e que se valoriza assustadoramente! É de espantar mesmo.

O que nos esquecemos de falar, até porque não é tão emocionante quanto falar da valorização astronômica do Bitcoin, é que em 31 de outubro de 2008, no mesmo White Paper que propôs a criação de uma moeda eletrônica peer-to-peer, Satoshi Nakamoto, estabeleceu o uso de um banco de dados altamente distribuído, e imutável para ser o registro de todas as transações feitas em Bitcoins.

E esse banco de dados é o que chamamos hoje de Blockchain. Basicamente, o Blockchain é uma grande Ata onde só é possível acrescentar linhas que, uma vez incluídas, não podem ser alteradas. No caso do Bitcoin, essa imutabilidade é garantida por alguns mecanismos de consenso onde todos os participantes da rede têm uma cópia da Ata e só através do consenso da maioria deles é que poderão ser incluídas novas linhas.

Por trás dessa rede, incorporada ao próprio tecido que define o seu banco de dados, esconde-se a verdadeira revolução trazida pelo Bitcoin. Mais que um banco de dados massivamente compartilhado, a implementação do Blockchain trouxe algo novo, revolucionário, disruptivo:  A remoção do terceiro de confiança, cuja função passou a ser distribuída na rede. Passamos a poder confiar!

É um salto de fé que temos extrema dificuldade em fazer. Passamos tantas gerações desconfiando uns dos outros que quando isso não é mais necessário, não acreditamos na mera possibilidade de podermos confiar em alguém que não conhecemos.

E é nesse ponto, quando removemos a desconfiança do relacionamento, é que a inovação pode realmente começar a ocorrer.

O primeiro e mais visível impacto é a redução dos custos das transações. Ao diluir a necessidade de confiança pela rede, todos os custos com o registro e liquidação de transações caem de forma sensível abrindo um novo leque de possibilidades para micro pagamentos, por exemplo, atingindo uma parcela da população que não tem alternativa ao uso do dinheiro em espécie por não ter acesso a um sistema bancário caro (em boa parte devido à necessidade de todos os mecanismos de controle da confiança que existem hoje).

Já para as instituições, a redução de custos com registro, liquidação e compliance é o que mais impressiona. Um estudo da Accenture, confirmando números anteriores da Deloitte, indica que se os oito maiores bancos de investimentos adotassem a tecnologia, a economia direta giraria entre 8 e 12 bilhões de dólares anualmente com uma redução do seu custo operacional do seu back-office na ordem de 30% (https://www.accenture.com/us-en/insight-banking-on-blockchain).

Mas não se trata só de economizar.

Com a redução dos custos de operação, toda uma nova janela de oportunidade se abre e já vem sendo explorada pelas Fintechs e Startups que surgem a cada momento. Empresas ágeis, com um notebook na mão e uma ideia na cabeça e acesso barato a recursos computacionais em nuvem.

Vivemos hoje um momento único. Uma nova geração de empreendedores com acesso a um volume de recursos cada vez mais abundante e barato, capaz de pensar novas ideias e concretizá-las em software. Com a incorporação do Blockchain ao dia-a-dia destas empresas, imagino que voltaremos a poder nos surpreender com a criatividade e inventividade de uma nova geração de empreendedores que ainda tem muito a explorar e oferecer.


Mais que um banco de dados, o Blockchain trouxe a real possibilidade de implementarmos uma rede de distribuição de valor uma forma de transacionar, de forma segura e principalmente confiável, com qualquer um de nossa nova vila global.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

A Única Certeza

Perdemos a capacidade de nos surpreender.

Faz apenas 10 anos que o iPhone foi lançado e mudou o mundo. Se pudessemos voltar no tempo e dizer para nós mesmos em 2001 (já em pleno século XXI) que em menos de dez anos teriamos um dispositivo pessoal no bolso, capaz de acessar toda a informação já produzida no mundo mas que o seu principal uso seria o de bisbilhotar a vida dos outros e ver fotos de gatinhos... Qual seria sua reação? Reflita um pouco. Pense e tente responder honestamente.

Menos de dez anos depois deste inusitado diálogo, Steve Jobs lançou o iPhone e, essencialmente, revolucionou a forma como nos relacionamos com a informação. De uma hora para outra, para o bem ou para o mal, passamos a ter acesso imediato a informações sobre coisas acontecendo do outro lado do mundo. A reação, antes mediada pelos jornais, televisão e rádio (e logo em seguida pelos portais de notícia) passou a ser instantânea. Graças às redes sociais, hoje somos capazes de nos mobilizar em uma velocidade impensável para as antigas gerações.

Independente dos gatinhos, nossa relação com a informação mudou. Não aceitamos mais a informação mediada. Desconfiamos dos meios de comunicação. Nos isolamos em bolhas de informação onde ouvimos o que queremos ouvir, aquilo que se adequa à nossa visão de mundo. Dez anos depois do iPhone, nos interconectamos de tal forma que passamos a poder escolher com quem conversar em qualquer lugar do mundo. E ao invés de tentarmos abrir nossos horizontes, insistimos em conversar com nós mesmos. Chegamos ao tempo da informação instantânea sem ter aprendido a ouvir.

O resultado dessa mudança é visível não apenas nas nossa relações interpessoais. Ao longo do tempo vimos o mesmo acontecer com empresas. Fusões e aquisições aumentaram a concentração de visões de mundo. Empresa A competindo com empresa B não apenas com a qualidade de seus produtos ou serviços mas, principalmente, pela sua capacidade de reagir às demandas do mercado. Investindo cada uma em tecnologia para se diferenciar pela capacidade de reação e não pelos produtos. Cada salto tecnológico de uma seguido por uma fase de recuperação e salto da outra em um jogo de pula-carniça comercial. Até o momento em que as tecnologias se equipararam e deixaram de ser vantagem competitiva, abrindo as portas para um universo de serviços padrão que hoje hospedamos na nuvem para consumo de qualquer um que necessite.

A busca acelerada de ferramentas de Inteligência Artificial e Machine Learning são a nova face dessa corrida pela diferenciação e as empresas do setor financeiro foram as primeiras a perceber as vantagens competitivas dessas novas tecnologias. Os grandes negócios em bolsa de valores não são mais feitos por pessoas, são executados por algorítmos que tomam, em frações de segundo, decisões que provocariam, certamente, úlceras estomacais em muitos analistas de mercado.

As empresas já viram que algorítmos e mecanismos de inteligência são necessários para se diferenciarem no mercado. O lucro depende, agora, da velocidade da tomada de decisão associada à capacidade de influenciar a demanda. A inteligência artificial não apenas analisa, ela, agora, influencia e cria a demanda.

Faça uma experiência: Entre no Google e faça uma pesquisa por algum artigo que potencialmente tenha algum interesse em comprar um dia. Chegue até uma loja virtual e confira o preço. Depois disso veja o que muda na sua linha do tempo do Facebook. Muito provavelmente você descobrirá que diversos amigos seus “curtiram” páginas relacionadas ao produto que você acabou de pesquisar. Anúncios direcionados surgirão “do nada” na sua timeline. Isso sem falar que de uma hora para outra, anúncios desse produto começarão a aparecer até nos jornais online que você costuma ler.

As empresas não tem mais tempo a perder. Quanto mais rápido chegarem até você, maiores serão as chances que você compre, que você consuma, que você gaste. Não é a toa que a disciplina de “Dados como Serviço” cresce da forma como está. Empresas fornecem “perfis” de consumo pré-catalogados e disponíveis para nos encaixar.

Quantas vezes você não leu um texto assim: “Pessoas como você também compraram...” E não é que o produto anunciado era mesmo interessante? Por um momento você fraqueja. Chega a clicar no link para dar uma olhadinha e quase sai aquela compra por impulso. Para o vendedor, não foi dessa vez. Da próxima, no entanto...

Os mecanismos de inteligência artificial aceleraram o reconhecimento de padrões a tal velocidade que conceitos como “next best offer” deixaram de ser apenas chavões na cabeça dos executivos de marketing. São parte da preocupação de toda a corporação; definem como as estruturas de dados devem ser criadas para que os algorítmos determinem, em tempo real, qual a próxima oferta que veremos no Facebook ou naquele portal de fofocas que tanto gostamos.

Não sabiamos onde chegariamos quando o iPhone foi lançado, dez anos atrás. Para onde esta nova onda de inteligência artifical nos levará? A única certeza que tenho é que tudo vai mudar.

De novo.

terça-feira, 14 de março de 2017

Fumaça

Me impressiona nossa capacidade de discutir fumaça. De uma hora para outra, os tornados do Sul viram notícia, discutimos os nós do trânsito, a nevasca do século em Nova York, e a nova definição de Caixa 2 na política, tentando distinguir caixa 2 de corrupção de caixa 2 político. Tudo isso para evitarmos falar de aquecimento global, falta de educação social e representação política.


A fumaça da discussão do caixa 2 acoberta o fato que continuamos queimando estrume ao invés de lenha. Tanto faz se um Real foi desviado de uma obra por superfaturamento ou deixou de ser pago como imposto por uma empresa: Um Real dado a um partido político através de caixa 2 é um Real a menos na Saúde Pública. É um Real a menos nas escolas. É um Real a menos nas estradas. Um Real em Caixa 2 é um Real roubado da população.

Pessoas morrem quando esse dinheiro não chega onde deveria estar.

Mas ainda aqui, a discussão teria deixado de ser sobre a fumaça e chegado apenas às chamas. O que acho que é o miolo da questão, o estrume queimando, é a questão da representação política das empresas.

Uma empresa privada pode ter representação política? Se o governo é do povo, para o povo e pelo povo, onde cabe a empresa privada nessa história? Como fica a nossa democracia (com d minúsculo mesmo) quando o objetivo dos nossos representantes é o lucro dos seus patrocinadores?

Que fique muito claro: o objetivo de qualquer empresa é o lucro. Apenas o lucro viabiliza a existência da empresa. O que os seus sócios quiserem fazer com suas partes e retiradas, é opção deles e de mais ninguém mas a empresa, no entanto, tem uma responsabilidade apenas com o seu capital. E o lucro é a forma que a empresa tem para preservar e aumentar seu capital.

É aí que reforço a pergunta... Uma empresa pode ter personalidade política? Em sendo o seu interesse exclusivamente econômico, não faz sentido que um ente que só objetiva o lucro financie campanhas e partidos políticos. Como distinguir esta doação de um investimento? E, se investimento for, qual o retorno esperado?

E ainda tem quem defenda o caixa 2 nas campanhas...